quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Café
Existe algum tipo de teoria que ligue o ato de beber café com o fato dele estar incutido tão profundamente em meios artísticos e criativos? Não sei, mas tenho essa impressão de que o café é de alguma forma fonte de inspiração e mantenedor da existência artística.
Já imaginou o que seria de artistas, cineastas, designers, programadores, e toda raça de pessoas que lidam com a criatividade sem café?
Não me toca tão profundamente essa substância negra, às vezes espessa e amarga se sem açúcar.
Há quem não viva sem. Há quem o tome como vício.
Não sei do que se trata a magia que cerca o café, mas deve fazer alguma diferença para a criatividade enfim, estou cá escrevendo sobre ele, e nem sequer senti seu cheiro hoje.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Aghata

Ao subir pelo túnel do metrô, Aghata se encontrou completamente sozinha na rua, mas não tinha problema, era sempre assim. Sempre saia à noite as ruas estavam vazias. O dia seguinte era dia de trabalho, mas ela não se importava muito. Na verdade, nada importava muito, Aghata procurava um sentido para as coisas, e ela sempre achou que era à noite que ela ia encontrar.
Atravessou a rua que ainda estava quente do sol que tinha feito durante o dia, o que não era tão comum por aquelas partes da Europa, e chegou ao outro lado quase que automaticamente. Ela já conhecia aquele caminho como conhecia o de sua casa.
Na boate clandestina no subsolo, Aghata sentiu-se em casa. Aquilo não fazia muito sentido, pois sua casa não era úmida e abafada como aquele lugar, mas sentiu-se em casa. Cumprimentou algumas pessoas e conseguiu com alguma dificuldade alcançar o centro da pista de dança.
Aghata viu o homem novamente. Ele estava, como em todas as outras noites, encostado na parede ao lado do bar, seus olhos não pareciam naturais, e sua pele muito branca chamava a atenção dela. Ela avançou na direção do homem, sentia um ímpeto que a puxava como mágica para perto do homem, e o barman lhe servia um copo de vinho.
Os dois entraram com voracidade no apartamento, a porta abriu com tal força que o som que emanou da batida na parede ecoou pelo corredor vazio. Eles estavam se beijando ardentemente e Aghata começou a tirar sua própria roupa sem muita preocupação de onde ia deixá-la.
O homem jogou Aghata contra a poltrona com certa violência, assim que ela olhou nos olhos do homem eles parecem inumanos. Aghata se encolheu na poltrona quando percebeu que um medo inexplicável começou a tomar conta dela.
O homem se aproximou e calmamente explicou para ela que há muito tempo atrás, antes mesmo do que qualquer coisa que ela possa imaginar, sua espécie foi condenada a sobreviver em virtude da espécie da mulher, e que há muito ele vinha observando-a. Sabia que ela procurava alguma coisa, e ele estava muito satisfeito em poder oferecer isso a ela.
Aghata entendeu o que o homem falava e foi começando a ficar mais confortável com o que ele dizia. Aquilo soava realmente como o algo que Aghata havia procurado por boa parte de sua vida, a forma como aquele homem vivia acima de toda a sociedade, vendo tudo como um grande jogo, como ele se tornara uma peça mais importante e mais consciente nesse jogo. Aghata queria aquilo e o homem estava oferecendo.
Sem oferecer resistência, Aghata se encostou na poltrona, o vestido segunda-pele caído abaixo de seus seios, deixando os bicos dos peitos perfeitos para fora. Ela sentiu o frio da pele do homem emanar por todo o quarto, seu corpo estremeceu, o homem parecia mais branco ainda sob aquela luz, ou será que era ele mesmo? Tudo o que Aghata havia esperado a vida toda agora poderia ser resolvido com uma simples mordida. Inclinou suavemente sua cabeça para o lado e esperou o homem sorver seu sangue, o que lhe deu um prazer inigualável.
sábado, 31 de março de 2012
Marvin

Eu estou escrevendo isso para contar a história de como Marvin acabou pulando daquela ponte, mas não estou contando isso para que vocês se compadeçam de Marvin, Marvin não era o tipo de homem do qual as pessoas se compadecem, Marvin era o tipo de homem do qual as pessoas tem inveja, e no grande momento de sua vida, foi quando, sem prévia nem aviso, Marvin acabou pulando daquela ponte.
Marvin, 22 anos, estava na NYU, mas ao contrário de seus colegas, ainda morava com sua avó, a poucos quilômetros de seu campus. O que venhamos e convenhamos, não era lá coisa muito normal por esses lados de lá.
Marvin tinha uma rotina, mas ela era raramente seguida. Para ele, rotina era o que sustentava os argumentos das pessoas sem imaginação, por isso a rotina de Marvin era apenas um papel colado na geladeira para acalmar os ânimos de sua avó e em sua cabeça seu único hábito era acordar todos os dias. E o cultivava religiosamente.
Ao contrário da maioria das pessoas de sua idade, Marvin não tinha celular, o que fazia sua vida desrotineira um ponto ainda mais complicado de se lidar: ninguém nunca sabia por onde Marvin andava. E Marvin andava.
Gostava de estar em todos os lugares e com todas as pessoas. Ele conhecia, ao que parecia, mais da metade de toda a cidade, e em todos os lugares que passava alguém já tinha ouvido falar de Marvin: uns pela vez em que ele havia tocado violão na rua para conseguir dinheiro para um corte de cabelo estilizado, outros pela vez em que ele tinha juntado cinco grafiteiros muito talentosos para pintar uma das balsas de Staten Island e outras até pelo fato de que Marvin havia sido o primeiro homem a cruzar a ponte do Brooklyn plantando bananeira.
De fato, a ponte do Brooklyn era algo constante na vida de Marvin, talvez a única coisa constante (tirando sua avó é claro), e sem dúvidas, não poderia ter sido melhor a escolha dela como ponto de despedida de Marvin desse mundo. Foi lá também, na ponte, que Marvin achou a fotografia.
Aquela fotografia era tão intrigante quanto a forma com que Marvin a achou. Poucas vezes na vida Marvin havia tropeçado. Se considerava um homem bastante equilibrado, mas naquele dia específico não pode controlar a força da gravidade que o puxou com força para a madeira dura que forrava a plataforma lateral à ponte, dedicada aos passeios dos pedestres.
Assim que caiu, os olhos de Marvin pousaram diretamente na estranha fotografia. Estava ali, gentilmente posicionada no chão entre o vão e o pé do banco. Um homem nu, uma bicicleta e aquele mesmo banco no qual Marvin se apoiava. Virou a fotografia e ali escrito leu a frase que mudou tudo.
Primeira reação, quase instintiva, Marvin olhou para os lados, mas estava sozinho na ponte, virou e desvirou a fotografia, sentou-se na cadeira, levantou-se. Repetiu aquela que imaginou ter sido a movimentação do homem da foto.
Ali, naquela posição estranhamente familiar para Marvin ele avistou, por entre as frestas da ponte o que ele sentiu estar procurando a sua vida toda, aproximou-se mais da fresta de forma que pudesse enxergar melhor, mas ainda não era o suficiente.
Quase como que em hipnose pela recém-descoberta, Marvin se aproximou da grade de proteção da ponte, colocou levemente as mãos no corrimão, tentou avistar avidamente, mas foi inútil. Pôs os pés cambaleantes sobre a madeira do corrimão, abriu os braços longamente e deixou que a gravidade vencesse outra vez, se encontrando finalmente com aquilo que mais desejava.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Chuva
- Mas eu voltei por você!
- Não faz diferença, eu estou saindo daqui. Não aguento mais essa situação.
Tereza pega sua mala já preparada no chão da sala, coloca as chaves em cima do balcão da cozinha e sai pela porta, deixando ele completamente devastado.
Ele cai de joelhos no meio da sala que agora parece completamente vazia. Sente um aperto no peito que parece incurável. Ele leva a mão até o peito e aperta um local onde ele acha que fica seu coração, não tinha prestado muita atenção nas aulas de biologia de muito tempo atrás, não era muito bom aluno, talvez lembrasse daquela música do Milton Nascimento: “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”, mas não tinha certeza.
A dor que sente é intensa. Ele não sabe exatamente se a dor vem do término do casamento de vinte anos ou de sua mão apertando o peito cada vez com mais força. Depois do que parece uma eternidade tentando conter a dor, ele cai exausto no chão, seu corpo se contorcendo por cima de si mesmo. A dor era real. Excruciante. Seus olhos se fecham com calma enquanto sua mente tenta afastar a dor. Mas Tereza havia ido embora, não havia mais sentido em afastar a dor. E como uma onda que engole a areia a dor tomou conta do corpo dele, fazendo-o entrar em um estado de torpor.
Seus olhos se abriram calmamente, a luz ainda muito forte o cegando um pouco. Ficou um tempo tentando se familiarizar com a luz e conseguiu, finalmente, colocar sua visão em foco, ainda um pouco tonto. Ele lembrou sonhos, imagens distorcidas de sua infância: o ano em que seus pais se separaram e como ele achou que nunca poderia sentir uma dor igual na vida, o primeiro beijo aos 12 anos, depois, aos 14 saber que nunca poderia enterrar a mãe por causa da ditadura, e como descobriu que a dor da separação de seus pais não era nada comparada a perda de um deles, aos 22, a primeira vez que viu Tereza... Tereza, uma pontada de dor surge no mesmo lugar, e assim que ele leva a mão ao peito, uma figura, de olhos verdes profundos e cabelos negros como a escuridão, aparece ao seu lado. Ele finalmente compreende, estava em um hospital.
- O que aconteceu?
- Você teve um infarto. O médico diz que você tem sorte. Se eu não tivesse voltado para pegar meu celular, você já estaria morto à uma hora dessas.
- O celular... – os dois ficam um minuto em silêncio, Tereza é a primeira a falar.
- Me desculpe, me desculpe de verdade, eu não queria causar tanto sofrimento a você. Você sempre foi bom para mim.
- Eu te amei... E amo, desde que te vi, há trinta e cinco anos atrás, naquela faculdade, você estava linda naquele dia.
Tereza parece se lembrar do dia em que viu ele pela primeira vez. Um leve sorriso surge no canto de sua boca, que rapidamente é trocado por uma cara séria.
- Você não vai me aceitar novamente, não é? Não depois de tudo o que fiz para você.
Ele olha carinhosamente para ela, mas ele sabe que jamais poderia suportar sentir outra vez uma dor tão grande quanto havia sentido, ele sabe, ela também, que aquilo voltaria a acontecer, mais cedo ou mais tarde, para ela, o amor já vinha se deteriorando há muito tempo, mas ele não enxergava, era um romântico incurável. Havia se atado tão fortemente a ela, e aquele sentimento, pois não tinha mais nada, não tinha mais ninguém.
Há tanto tempo Tereza havia sido seu porto seguro, que ele não conhecia outra casa, não conhecia outro amor. A dor havia sido muito forte, e acarretara em uma série de consequências que ele não podia se dar ao luxo de passar novamente.
Os dois se olharam carinhosamente como se soubessem que não deviam dizer nada. Tinham possuído por muito tempo um amor invejado por muitos. Agora, estava acabado.
Tereza pegou sua bolsa e se dirigiu até a porta do quarto. Antes de sair olhou para trás, viu uma última vez o homem que amara por tantos anos.
- A gente se vê por aí.
- A gente se vê por aí.
Mas os dois sabiam que aquilo não era verdade. Não se veriam nunca mais. Para qualquer um dos dois, reviver aquelas lembranças do amor perfeito que tinham seria ruim de mais. Nunca mais poderiam se ver.
Tereza fecha a porta atrás de si. Ele puxa seu cobertor e vira para o lado. Nenhum dos dois pôde conter a chuva que chegou em seguida.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Adotada
Sim, isso mesmo que vocês ouviram, a-do-ta-da.
Na hora eu quis gritar, ou será que quis chorar? Bem, não sei exatamente o que era, mas aquilo foi me subindo pela garganta, me asfixiando, e como num grito, aquilo quis sair pela minha boca. Em vão. Minha boca não conseguia formar as palavras certas e como uma tristeza calada, meus olhos apenas alcançaram os de minha mãe num protesto silencioso.
Porque tantos anos de mentira? Por quê? E eu não acredito que eles não tenham me contado. Era tão simples. Sempre fomos tão apegadas, eu e minha mãe, será que devo chamá-la de mãe? Já não importa agora, queria poder sumir, ir para um lugar bem longe. Meu mundo foi construído numa mentira, ele era uma mentira.
Pensando melhor, acho que no fundo eu sempre soube, e eles sabiam disso, mas mesmo assim não me contaram. Minha... mãe, sim, minha mãe, na verdade ela sempre foi. A confusão em seu rosto quando contei que eu sabia e depois suas lágrimas de desculpas estão bem vívidas em minha memória, qualquer um abraçaria e choraria junto, eu não, eu apenas a olhei com desprezo, saí e a deixei lá chorando. Olhando para trás, para essa situação, me sinto tão monstro quanto achava que ela era naquele momento, na verdade me sinto mais.
Na época, eu quis conhecer os meus ais verdadeiros, minha mãe disee que ela não os conhecia, mas tinha os telefones do orfanato onde ela tinha me adotado. Ela ficou triste, mas achava que era meu direito saber. A princípio pensei em ligar imediatamente, mas tive receio de me decepcionar com a mulher que tinha me gerado. Pensei naquilo a semana toda, e por fim decidi que era melhor cuidar da minha mãe, ao invés de tentar achar a mulher que não me quis quando eu era pequena. Se não me quis naquela época, por que haveria de me querer agora?
Desde que descobri já se passaram 5 anos, eu, meu pai e minha mãe fizemos as pazes, e no ano seguinte eu ganhei um irmãozinho, que hoje está com 3 anos, e é alegria da família. Sou feliz, foi uma notícia difícil, mas sou feliz.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Areia Branca - Parte 02/02
Por mais livre que meu corpo parecesse, minha mente estava aprisionada, meus pensamentos foram eternamente amaldiçoados a repassar aquele momento, como num looping do tempo que se repete infinitamente.
Eu pensava na praia, nas pessoas, mas não pensava realmente nisso, aquelas imagens ficavam nesse looping maldito em minha mente. Não pensava realmente em nada. Às vezes tentava lembrar do que queria ser quando crescesse. Era difícil.
Talvez eu quisesse ser pássaro, essa seria uma boa idéia, era uma boa idéia de liberdade. Ou quem sabe talvez, quisesse ser um daqueles ricos das praias da Cidade do Cabo. Talvez não. Eu gostava mais da sensação do proibido. Talvez quisesse ser como meu pai. Não. Eu nunca conheci o meu pai.
Como vê, já não lembrava com muita clareza da minha infância. Parecia outra vida. A vida de outra pessoa, que eu havia assistido, como numa tela de cinema, e tivesse passado, um filme bom, mas sem muitos espectadores.
- Moço!
Eu virava, e sempre aquela falsa sensação de que a pessoa me enxergava. Sim, ela falava comigo, mas não exatamente comigo. Aquela imagem que todos viam era uma máscara que eu havia criado para proteger meu eu verdadeiro. Proteger aquela pessoa dentro de mim machucada, dilacerada, amputada de mim mesmo.
Era assim, eu me olhava no espelho e não reconhecia a mim mesmo, claro, já estava be diferente de quando eu tinha saído d'África, mas não parecia o mesmo, mas às vezes, olhava bem lá no fundo e pensava que podia ver, aquela criança que um dia eu havia sido, mas eu sabia que eu a havia perdido a muito tempo atrás, nas areias brancas da Cidade do Cabo.
Muitas coisas de mim ficaram lá na Cidade do Cabo. Minha infância e minha inocência principalmente. Na Cidade do Cabo eu me tornei adulto quando ainda tinha corpo de criança, e perdi minha alma justo no momento em que eu mais precisaria dela. Outras coisas ficaram lá também. Lembranças dessa vida que eu tive e que teima em se mostrar como a vida de outra pessoa.
Depois de muito tempo passado daquele dia, daquele momento, eu finalmente me deparei com a verdade límpida que não foi escrita, e que se mostrava para mim nessas areias: eu morri naquele dia.
Talvez isso aqui seja só uma ilusão. Talvez esse passarinho voando na minha janela seja uma ilusão, um sopro de vento. Mas eu não estou mais aqui para saber.
Aqueles pés que encontrei na areia são meus, e eles caminham novamente pela areia branca da Cidade do Cabo, mas é um lugar que eu não reconheço. Vazio.
Espero que Deus venha me encontrar aqui. Eu sei que em alguma hora ele tem que vir. E então poderei dizer a ele: "Já não era sem tempo, Senhor".
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Areia Branca - Parte 01/02
Era tão estranho. Eu sabia que eles não estavam realmente ali, porque todas as outras pessoas naquela praia desviavam o olhar cada vez que viam os pés, assim como todas as memórias daquele tempo, ao contrário, teimavam em permanecer quanto mais eu olhasse para eles. É estranho como nos tornamos invisíveis ao mundo depois de passar por aquele tipo de experiências.
Aqueles pés estiveram presentes em muitos momentos da minha vida. Em certo ponto nós ficamos intangíveis e nos tornamos apenas pegadas deixadas na areia, que se vão com as águas.
Estivemos juntos na África. Na mãe África. Toda aquela crença de que um dia sairíamos daquela miséria, daquela fome, se tornaram reais, mas com um custo muito alto. Um custo tão alto que preferia não ter tido que pagar por ele. A liberdade do meu corpo não valeu a perda da minha alma. A minha alma foi há muito tempo enterrada, nas areias d'África.
Aquelas areias da praia que entravam por entre os meus dedos fazendo uma cosquinha de leve, me lembravam da minha infância, lá nas areias caras e brancas da Cidade do Cabo. Os ricos corpos bracos e louros que quase se misturavam com a areia e desfilavam pelas areias jamais saberiam que à noite as areias se entregavam aos corpos negros como uma mulher em sua noite de núpcias.
Eu e meus amigos pisávamos a areia calmamente, com medo de sermos ouvidos das casas gigantescas (pelo menos aos nossos olhos). Aquela primeira pisada na areia era tão prazerosa. Aquela sensação das areias entrando por entre os dedos sempre me pareceu algo proibido. Algo que não me pertencia, e ao qual eu também não pertencia.
Hoje, já nas areias queimadas das praias brasileiras podia sentir aquela mesma sensação, e agora, já sem aquela intrínseca imaginação infantil podia constatar que pisar nas areias e senti-las entrando por entre meus dedos era a única forma que eu tinha de me sentir livre de novo.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Olhos azuis
Gostavam de me olhar, incessantemente. De me despir nua, daquele jeito que poucos olhos conseguem.
Brilhavam um brilho de criança na manhã de Natal, que vê os presentes embaixo da árvore esperando o doce e ansioso toque das mãos infantis a tatear e descobrir.
Miravam-me como dois céus azuis particulares, que eu podia ver, só eu podia ter.
Aqueles olhos azuis, me seguiam pela casa. Eu com os pés nus tocava o chão gelado ao sair da cama, um leve tremos me subia pelas costas, da mesma forma que os olhos azuis me faziam sentir na cama. Aqueles olhos azuis atravessavam as paredes comigo, por todos os cômodos da casa.
Ah os olhos azuis!
Mas um dia os olhos azuis se fecharam. E eu não tinha mais os olhos azuis. Aquele mar, perdi todas as chances de me banhar naquele mar para sempre. Nunca mais teria aquele mar matinal que me acordava toda mahã, me encarando como quem pergunta: estás pronta para viver?
Eu queria viver, olhos azuis, mas você não está mais aqui. Seu céu azul em que eu me banhava de felicidade todos os dias não está mais aqui. Por que olhos azuis? Por quê?
Por que fugistes de mim e nunca mais voltastes?
A água límpida e azul que batia nas pedras negras das íris de seus olhos. As rajadas ocasionais de vento que carregavam a areia branca de suas praias para dentro daquele azul sem fim. Que me carregavam como se tragassem um cigarro. Como um cigarro em que se traga o último gosto do vício. O meu vício.
Doces e ternos olhos azuis, que me faziam voltar todo dia pra casa. O que farei agora olhos azuis? O que farei sem você? Pra que casa voltarei?
Você me viciou, e como fico eu? Estou viciada em você...
E você se foi.
O doce manto negro cobriu seu azul sem fim me deixando só, vazia, transparente.
E você se foi.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Último dia do mês

Último dia do mês. Quero escrever, não consigo. A inspiração se esvai como que água por entre dos dedos ressequidos.
As palavras pulam em minha frente, mas não são minhas. Quero roubá-las, fazê-las minhas, engoli-las, antropofagicamente. Quero a câmera na mão, para filmá-las belas e dançantes, fazendo loopings e piruetas como se zombassem por não poder tê-las.
Riem-se todas de mim. “Não consegue pegar-nos?”. Tristemente repito para elas: “Estou a caminho...” Pareço fraca para cumprir com o prometido. Elas continuam a saltar e rir, como fadinhas divertindo-se com minha fraqueza.
Estico meus braços na direção de uma delas. Meus dedos quase chegam a encostar em uma delas, desilusão, se eu não me engano. Embora parecesse que se eu esticasse um pouco mais poderia pegá-la facilmente – uma vez que desfilava sedutora alheia ao mundo – não queria novamente ter que me contentar com ela.
Queria aquela, complicada, que voava com a destreza de 10 menestréis, bem alto, acima da minha cabeça. Não consegui entender direito o que era, mas era alegre, e brilhava.
Aos poucos a fraqueza foi desaparecendo, e parecia que as palavras se aproximavam de mim, ainda tímidas. Então era esse o segredo?
Levantei confiante, peguei lápis e papel e avancei sem temor para onde estavam as palavras. Elas pareciam gostar do lápis e do papel, especialmente do lápis, pois escorriam por seu corpo e sua ponta escura até tocar delicadamente o papel. Parecia que elas sabiam desde sempre como se formar em frases, sentenças, orações, versos.
Senti que elas entravam pela minha cabeça e escorriam por todo meu corpo para que eu sentisse o efeito que cada palavra daquela tinha em mim, saiam pelo lápis. O único ponto de escape, a única válvula, o único funil, que tornava a vida tão fácil.
A chuva começava a cair lá fora, e as palavras começavam a cair aqui dentro.
Uma a uma sem vontade, caiam as gotas e as palavras, cada vez mais fortes, até tomar meu corpo de tempestade e poesia.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Originalmente Poesia
Queria de volta aquele pé de sonhos no meu quintal. Pra eu poder subir no galho mais alto e jamais ter que descer.
E ter você.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Eterna espera das manhãs de domingo
Você já quis voar? Eu já. E voei. Não sou pessoa de pés no chão, não sempre. Sou mais de voar por aí, olhar as coisas como se eu pudesse ser alheia ao mundo. Sabe? Aquela sensação de eterno voyerismo, sem precisar se preocupar se o mundo está olhando para você.
Você está além do posso alcançar. Mas posso te olhar, e assim percebo que você também me olha, quase sem querer seus lábios se abrem em um sorriso, não posso evitar, sorrio também. E de repente tudo volta ao normal, como se nunca tivesse acontecido.
Por que essa eterna espera pelas coisas que não acontecem?
Quero me acabar em sorrisos eternos e ternos sem ter que me preocupar com o mundo. Quero me acabar em você, como uma doce manhã que se espreguiça num domingo calmo de janeiro.
Quero você de qualquer jeito, a qualquer hora, como for. Quero você.
Sabe, é estranho estar aqui, e pensar que não estou. Encarar tudo como uma grande ilusão, a vida como aquele imenso pé de sonhos que cultivei em meu quintal.
Gosto de subir o pé de sonhos todo dia, e sempre é diferente. As vezes te encontro lá em cima, à vezes não preciso nem chegar ao topo, e às vezes, mas só às vezes te procuro por todo o caminho, mas no fim tudo se acaba como a eterna espera, salgada e doce e azedinha como devem ser as esperas.
De vez em quando eu adubo esse pé, e parece que cresce a ponto de não se poder enxergar o topo, mas descubro que embora maior e maior a cada dia, fica cada dia mais fácil chegar ao topo. Vivo desses sonhos.
Colho todo dia imensos sonhos meus e seus e todo dia planto uma nova árvore. Meu quintal tá cheio de você. De todo esse sorrir, esse sonhar, de todo esse estar, e também do não-estar.
Estou cheia de você. E as vezes acho que você sabe disso.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Não sei.
Lia as palavras e elas passavam como água pela minha cabeça. Engoli todas. Ficaram todas alojadas na minha barriga, a cabeça funcionava alheia, pensando, pensando, em mil coisas.
Fiz um esforço descomunal de primavera para me levantar do sofá. O dever com a nação me chamava. Tantas coisas me chamavam a sair daquele sofá, mas a preguiça me dominou.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
1011
O dia estava branco. Gostava de dias brancos, lembrava-lhe de outras pessoas de sua vida, lembrava-lhe de músicas, lembrava-lhe de sonhos.
Um pequeno cachorro quase esquelético atravessou a rua em sua frente, percebeu que o cachorro a seguia já a algum tempo. As vezes ele a olhava como se quisesse que ela ficasse para sempre... Ela sabia que não podia, tinha muitas coisas a fazer, tinha que quebrar alguns corações ainda, o dele não seria o último.
Caminhou pelo calçadão da praia. As crianças brincavam felizes na areia, alheias a tudo o que acontecia em seu pequeno grande coração. Estava apertadinho no peito, como se tentasse ficar quietinho para que ninguém pudesse ouvi-lo.
Alguns meninos jogando vôlei na praia ignoraram completamente a existência dela. Melhor assim, não sabia o que falar nessas ocasiões, era tímida, aos seus próprios olhos.
Tinha vontade de encontrar um amigo de infância, qualquer um. Não sabia porque, mas queria, e ela era assim, sentia essas vontades do nada. E enquanto não sanava o desejo não sossegava. Naquele dia ela não teria escolha, não havia a menor possibilidade. Teria que engolir a vontade a seco.
Levava na mão os cadernos da faculdade. Papéis, sempre papéis, e inteminavelmente eles continuavam a aparecer em sua vida. O primeiro papel como atriz, o papel avisando que havia passado no vestibular, o papel que dizia qual era o seu nome, o papel que ela exercia na comunidade. Sempre os papéis de sua vida.
Como não podia deixar de ser, lhe entregaram milhões de papeizinhos na rua.
Quase sem perceber ela chegou ao prédio em que ele morava. Era seu genitor, mas ainda assim parecia um completo estranho aos seus olhos. Aquele assunto teria que ser resolvido naquele dia, era o único dia, ela precisava ficar livre dele. Não suportava a idéia de estar ligada a alguém que não estava nem aí.
Adentrou o elevador e sem pestanejar apertou o andar tão temido por tantos anos. Tantos anos evitando estar naquele lugar. Lá lhe trazia tantas lembranças. Lembranças que havia lutado praticamente sua vida toda para esquecer.
O elevador abriu. Hesitante ela deu o primeiro passo em direção ao seu futuro, para fora do elevador. Chegou ao apartamento: 1011. Aquele número lhe assombrava, hoje seria o fim do pesadelo.
Levantou a mão trêmula, olhou para o chão como quem pensasse que aquela não havia sido sua melhor idéia, abriu a boca para resmungar algo para si mesma mas sabia que não era necessário, já havia repetido a mesma ladainha diversas vezes. Sabia exatamente o que dizer quando o encontrasse.
Não chegara tão longe para mudar de idéia. Aproximou a mão da campainha.
O alarme soou longe, preparando o cenário para o inevitável.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Proseando sem nome nº 01

Hoje acordei com fome. Fome de poesia.
Fui até a cozinha, mas haviam acabado os raios de sol.
Subi as escadas com pressa para acordar minha irmã que dormia pesadamente sobre o travesseiro de sonhos dado a ela por nosso pai. Encontrei a cama vazia.
Minha irmã já voava pela janela ao encontro do dia que todo dia teimava em aparecer por lá.
Segui meus próprios passos de volta à cozinha. Que lugar mais perfeito para se começar um dia. Onde mais eu poderia tomar minha dose diária de tudo aquilo que me fortalece?
Onde mais encontraria minha dose diária de proparoxítonas e hiatos?
Apareceu hoje na cozinha uma prosa voadora. Pousou bem no parapeito de minha idéia e me olhou indagante como se quisesse permanecer por ali. Mas como toda boa prosa rapidamente voou antes que fosse possível alimentar-lhe com um pouco de esforço.
Após a prosa, se apossou de mim uma imensidão crescente. Teimou, teimou e ficou em mim. Cresci a ponto de agarrar-me ao céu, e tomar os raios de sol matinais no gargalo do dia.
Vi ao longe um paraíso particular, meu paraíso particular. Lá deitava-me sobre a grama e cantava esvaindo do peito toda dor da vida até que não pudesse ouvir minha própria voz, era como ser feliz para sempre.
Percebi então que não estava sozinha, me abraçava tímida uma vontade de ser vento; pés no chão, cabeça no céu e olhos no horizonte. Tudo se desfez diante daquele toque, e fui me juntar a vida que corria à passos largos, como se quisesse bater o record mundial daquilo que não existe.