(Continuação da criação de um personagem para um mundo de RPG baseado em guerras e batalhas)
Precisava
chamar a atenção dos mestres das sombras. Já tinha ouvido antes que havia
existido um escravo que tinha sido escolhido pelos mestres, isso não passava de
uma lenda, mas ela precisava tentar. Precisava vencer o torneio, mas isso, ela
sabia, seria impossível, pois ela não tinha nem como entrar no torneio, afinal,
não era qualquer um que o fazia, ainda mais sendo escravo. Mas nada a impediria
e ela soube disso no mesmo momento em que seu algoz o descobriu. Havia ouvido
naquela semana que tropas aliadas a ele estavam se movimentando em terras
proibidas para fazer uma troca de escravos com alguns magos.
Magos! Ela
sabia que tinha então uma carta na manga. Qualquer interação com aqueles que se
chamavam magos nessa terra era proibida e a grande fera estaria morta antes que
pudesse segurar o chicote, caso ela abrisse a boca. Para a sua sorte, seu algoz
não era a pessoa mais inteligente do mundo e caiu em sua armadilha
perfeitamente. Um dia em que o sol formava sombras especialmente densas ela conseguiu
esgueirar-se do lugar onde se encontrava trabalhando até se aproximar da grande
fera (o algoz gostava que seus escravos o chamassem assim). A fera se assustou
ao ver a menina, mas antes que a ponta de cravos do chicote cravasse em seu
dorso ela esgueirou-se para o lado, fazendo com que a ponta passasse a
centímetros de seu pé.
- Tenho uma
proposta para o senhor. – disse a menina encolhida nas sombras.
- Volte ao
seu trabalho humana, ou serei obrigado a matá-la.
- Eu ouvi
dizer que é proibido contrabandear escravos para os magos, e acho que os
mestres dragões vão ficar muito irritados com a sua falta de lealdade à
Mórfilis, grande fera.
A fera olhou
com ódio para a menina. Nesse momento ela sabia que havia conseguido sua
atenção, era só uma questão de pisar com calma nos próximos momentos.
- Mas isso
não precisa acontecer. O senhor pode ser uma fera muito rica. Poderia até, quem
sabe, subir de patente. Ser um general um dia. Sei que a grande fera gostaria
muito de ouvir seu nome dito dessa forma. General Kerkar.
- General
Kerkar... – disse a fera saboreando cada sílaba – Soa muito bem realmente. Mas
você não tem como provar que o que diz é verdade, ratazana. Por que eu iria
fazer qualquer tipo de acordo com você?
- O senhor
está se esquecendo, general Kerkar? – ela sabia que ele gostava da forma como
aquilo soava, só lhe faltava mais um empurrãozinho – O fato é de que o senhor
sabe como esse tipo de acusação envolvendo magos é investigada, ou não é
investigada – fazendo um movimento de cortar a garganta com o dedo – se o
senhor me entende. Só precisaria que o rumor se espalhasse. E além disso, o
senhor está se esquecendo da parte mais importante: como posso fazê-lo um homem
rico. E essa é a parte simples: o senhor só precisa pagar o preço de sangue para
que eu possa entrar no Torneio do Armagedon. Se eu perder, o senhor não tem com
o que se preocupar, e não perderá muita coisa, afinal, não sou a melhor de suas
escravas e o senhor e eu temos consciência disso, e se eu ganhar, bem, se eu
ganhar, posso pedir qualquer coisa que o senhor quiser como prêmio.
- E a
história?
- Jamais será
ouvida por qualquer um.
- Hahaha. Não
posso deixar de admitir que será prazeroso vê-la morrer.
Fazia, desde
então, cerca de dez anos desde que tivera aquela conversa com Kerkar, e tudo
havia saído mais ou menos como planejava. Havia conhecido segredos de pessoas
importantes por todo o continente graças ao seu envolvimento com os hassassins,
e isso a manteve viva por todos esses anos.
Os passos
doíam no amanhecer do quarto dia, mas sabia que não podia desistir. O corpo de
Kerkar pesava sobre o seu, mas estivera todo esse tempo à espera desse ritual.
Vira sua própria morte muito próxima nesses últimos dias e tinha conseguido
esquivá-la. Cruzar com um viajante errante fora, sem dúvida, a salvação do
último dia, e nunca esteve tão feliz quanto quando cortou sua garganta e bebeu
da fonte de água rubra e ferrosa que a morte lhe oferecera. A água do viajante
deveria ser o suficiente até o final da viagem.
Achou por
duas vezes que vislumbrava um dos mestres no horizonte, mas atribuiu as visões
ao calor nauseante do deserto. Havia ouvido falar das visões de deserto e pode
comprovar que eram verdadeiras as histórias, não que isso fosse muito
reconfortante. O sol que nunca se movia como era conhecido pela maioria do povo
ignorante dos reinos castigava no horizonte atrás de suas costas e ela ficou
aliviada quando no dia anterior haviam chegado a uma região costeira, não podia
entrar na água, claro, já que essa esbravejava contra as pedras da encosta a
uns quinze metros abaixo, mas o encontro com a brisa marinha tinha animado-a.
Não muito
depois alcançou a entrada do templo das sombras, o lugar de repouso de seus
mestres. Depositou o corpo de Kerkar na entrada, no altar dos sacrifícios, e
dirigiu-se descalça à câmara interna, onde deveria encontrar os mestres. E lá
estavam, como esperava que estivessem.
- Cinquenta e
oito dias e treze horas. É um recorde. Não esperávamos menos de você. – disse
um daqueles.
- De fato.
Teve momentos em que pensamos que já estava morta, mas as visitas que fizemos
nos comprovaram de que ainda lutava contra ela.
– disse outro.
- Venha,
criança. Não se pode considerar-se um verdadeiro hassassin antes que se tenha
conhecido a morte de perto. E você, criança, fez mais que isso, você usou a
morte como forma de continuar viva. Você bebeu a morte e renasceu como uma de
nós. O sangue é seu, e todo o sangue de seus inimigos te pertence a partir de
agora. Faça com que suas sombras se juntem às sombras de todo o mundo de
Mórfilis e que se curvem à um bem maior. O mundo é seu, faça bom uso dele.
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terça-feira, 24 de dezembro de 2013
domingo, 22 de dezembro de 2013
Kar - Parte I
(Criação de personagem para mundo de RPG baseado em guerras e batalhas)
O cheiro putrefato da morte estava ali. Não fora como nenhuma das outras vezes, podia sentir. Aquele cheiro. Entranhava-se em suas roupas, em seu cabelo, em sua carne. Não se importava, convivia bem (pensando-se que o ato de conviver não se resume apenas à “com viver”) com os mortos.
Já estava com aquele corpo para além do que achava necessário, mas aquele era mais um dos testes, os intermináveis testes. Precisava se acostumar com o cheiro da morte, disseram. Aquilo não seria um problema, tinha contestado, seu olfato já não era mais como nos primeiros anos. Não se importavam os mestres, o ritual tinha que ser concretizado de forma satisfatória.
De forma satisfatória... Aquelas palavras haviam perpassado sua cabeça nos primeiros dias: o que era satisfatório para aquela gente? Peraí. Pra começo de conversa nunca havia pensado que eles pudessem sentir satisfação em primeiro lugar. Bem, mas ali estava a frase, e depois das primeiras semanas parou de pensar naquilo.
Com o tempo entendeu que além do cheiro a morte deixava outras marcas. O sangue que nas primeiras horas havia corrido em pequenos rios pelo chão de terra, agora havia se transformado em negros cristais que emolduravam o quadro de uma morte perfeita. O sorriso debochado no rosto do homem, também agora parecia psicopata já que a pele ressecada de seu rosto havia aberto ainda mais o sorriso e os olhos o deixando com uma expressão endemoniada.
Não se incomodava com a cena, nem com o corpo, nem com o cheiro, mas havia sido difícil conseguir comida nos últimos dias sem conseguir sair por muito tempo daquele lugar. Quatro semanas haviam dito, quatro semanas e voltariam para buscar o corpo. Não que ela tivesse como ter certeza de como se contava o tempo no deserto, já que o sol nunca saia de sua posição, mas tinha bastante treinamento de campo e podia fazer algumas aproximações. Já haviam passado sete semanas e três dias em sua contagem e nem sinal dos mestres. Nos primeiros dias tinha sido fácil arrumar comida, chamados pelo cheiro do sangue muitos animais tentaram se aproximar e sofreram um fim trágico. Mas depois que o corpo começou a cheirar naquele calor foi ficando cada dia mais difícil conseguir comida. Água então... Ficava grata pelo fato de que tinha uma habilidade especial que fazia com que conseguisse se manter mais tempo sem água, sem isso, sabia, já não seria mais.
Estava cansada de esperar. Não. Estava na verdade entediada. Não gostava daquele lugar. Havia se adaptado muito bem ao conhecimento das sombras, e aquele deserto onde o sol castigava vinte e quatro horas por dia não lhe agradava nem um pouco. Precisava se alimentar e começava a pensar que talvez nenhum animal fosse voltar ali, talvez nunca mais. E não se arriscava a deixar o corpo, ele deveria estar intacto para os mestres.
Decidiu que não esperaria mais. O tempo já havia passado e sabia no fundo que os mestres não viriam. Limpou o corpo o melhor que pode tirando as larvas que pareciam ter crescido magicamente nos ferimentos e esfregando um pouco de areia para limpar as partes mais nojentas. Colocou o corpo nos ombros de forma que pudesse carrega-lo sem fazer muito esforço dos braços (podia precisar deles no deserto e era bom que não estivessem cansados de carregar um morto qualquer), virou as costas para o sol, porque seria incapaz de caminhar olhando para ele e começou sua caminhada.
Se o que pensava estava correto iria levar cerca de quatro dias para chegar até o covil carregando aquele corpo. Teria que dar.
O sol era implacável, e as memórias foram surgindo sem serem convidadas. Havia passado a maior parte da vida até então como uma completa desconhecida. Ninguém a via. Desde criança havia ouvido falar dos lendários hassassin e tinha inventado ela mesma uma forma de se “esconder nas sombras”. Nada comparado à habilidade em si de dobrar as sombras a seu favor, mas servia para alimentar-se e ouvir conversas que não deveriam ser ouvidas.
O cheiro putrefato da morte estava ali. Não fora como nenhuma das outras vezes, podia sentir. Aquele cheiro. Entranhava-se em suas roupas, em seu cabelo, em sua carne. Não se importava, convivia bem (pensando-se que o ato de conviver não se resume apenas à “com viver”) com os mortos.
Já estava com aquele corpo para além do que achava necessário, mas aquele era mais um dos testes, os intermináveis testes. Precisava se acostumar com o cheiro da morte, disseram. Aquilo não seria um problema, tinha contestado, seu olfato já não era mais como nos primeiros anos. Não se importavam os mestres, o ritual tinha que ser concretizado de forma satisfatória.
De forma satisfatória... Aquelas palavras haviam perpassado sua cabeça nos primeiros dias: o que era satisfatório para aquela gente? Peraí. Pra começo de conversa nunca havia pensado que eles pudessem sentir satisfação em primeiro lugar. Bem, mas ali estava a frase, e depois das primeiras semanas parou de pensar naquilo.
Com o tempo entendeu que além do cheiro a morte deixava outras marcas. O sangue que nas primeiras horas havia corrido em pequenos rios pelo chão de terra, agora havia se transformado em negros cristais que emolduravam o quadro de uma morte perfeita. O sorriso debochado no rosto do homem, também agora parecia psicopata já que a pele ressecada de seu rosto havia aberto ainda mais o sorriso e os olhos o deixando com uma expressão endemoniada.
Não se incomodava com a cena, nem com o corpo, nem com o cheiro, mas havia sido difícil conseguir comida nos últimos dias sem conseguir sair por muito tempo daquele lugar. Quatro semanas haviam dito, quatro semanas e voltariam para buscar o corpo. Não que ela tivesse como ter certeza de como se contava o tempo no deserto, já que o sol nunca saia de sua posição, mas tinha bastante treinamento de campo e podia fazer algumas aproximações. Já haviam passado sete semanas e três dias em sua contagem e nem sinal dos mestres. Nos primeiros dias tinha sido fácil arrumar comida, chamados pelo cheiro do sangue muitos animais tentaram se aproximar e sofreram um fim trágico. Mas depois que o corpo começou a cheirar naquele calor foi ficando cada dia mais difícil conseguir comida. Água então... Ficava grata pelo fato de que tinha uma habilidade especial que fazia com que conseguisse se manter mais tempo sem água, sem isso, sabia, já não seria mais.
Estava cansada de esperar. Não. Estava na verdade entediada. Não gostava daquele lugar. Havia se adaptado muito bem ao conhecimento das sombras, e aquele deserto onde o sol castigava vinte e quatro horas por dia não lhe agradava nem um pouco. Precisava se alimentar e começava a pensar que talvez nenhum animal fosse voltar ali, talvez nunca mais. E não se arriscava a deixar o corpo, ele deveria estar intacto para os mestres.
Decidiu que não esperaria mais. O tempo já havia passado e sabia no fundo que os mestres não viriam. Limpou o corpo o melhor que pode tirando as larvas que pareciam ter crescido magicamente nos ferimentos e esfregando um pouco de areia para limpar as partes mais nojentas. Colocou o corpo nos ombros de forma que pudesse carrega-lo sem fazer muito esforço dos braços (podia precisar deles no deserto e era bom que não estivessem cansados de carregar um morto qualquer), virou as costas para o sol, porque seria incapaz de caminhar olhando para ele e começou sua caminhada.
Se o que pensava estava correto iria levar cerca de quatro dias para chegar até o covil carregando aquele corpo. Teria que dar.
O sol era implacável, e as memórias foram surgindo sem serem convidadas. Havia passado a maior parte da vida até então como uma completa desconhecida. Ninguém a via. Desde criança havia ouvido falar dos lendários hassassin e tinha inventado ela mesma uma forma de se “esconder nas sombras”. Nada comparado à habilidade em si de dobrar as sombras a seu favor, mas servia para alimentar-se e ouvir conversas que não deveriam ser ouvidas.
sábado, 23 de novembro de 2013
And the Oscars goes to...
Na semana passada resolvi que ia assistir ao novo filme "Em Chamas" no dia da estreia. Era óbvio que eu iria me chatear: a gritaria a vergonha alheia me atingiriam com a mesma força. Mas fui mesmo assim, queria muito ver o filme.
Ao sair do filme, fui ao banheiro pensando que estaria livre finalmente dos comentários idiotas das pessoas do cinema. O quão enganada eu não me descobri quando enquanto saia do banheiro ouvi duas meninas conversando.
- Ah, eu achei a atuação da Jennifer (Lawrence) muito fraca! - comentava a primeira
- Que isso? Ela foi ganhadora do Oscar! - dizia visivelmente afetada a segunda.
Ganhadora do Oscar. Fiquei eu pensando enquanto voltava para casa. Eu concordava com a primeira menina, a Jennifer Lawrence estava canastrando demais no filme e como muitos de meus amigos sabem eu simplesmente acho que ela é atriz errada para o papel à começar por sua constituição física (mas isso fica pra outra conversa). O fato é de que ao lado de Woody Harrelson, Elizabeth Banks e Josh Hutcherson, a queridinha da américa Jennifer Lawrence aparece como uma atriz despreparada e canastrona.
Mas isso apenas me levou ao problema principal daquela conversa: quando vamos parar de achar que o Oscar é um medidor de qualidade (e não apenas um muquifo onde ganha quem paga mais)? E quando vamos parar de achar que só porque um ator venceu o Oscar ele será um excelente ator para sempre? Dentre outras coisas de que o ator depende para uma boa atuação, está diretamente ligada a atuação do diretor em sua direção de atores e isso pode estragar a atuação de qualquer ator.
Caso não acreditem nisso, entre outros exemplos, posso dar o de "O Quarto do Pânico" onde ninguém mais ninguém menos que a Srta. Cullen, Kristen Stuart tem uma atuação brilhante ao lado de Jodie Foster, e depois que cresce nos presenteia com sua incrível cara de "vou vomitar à qualquer momento" de Crepúsculo. Não é pra menos, acho que se eu tivesse que contracenar com o também sem sal, Robert Pattinson, eu faria a mesma cara.
O fato é: a cerimônia do Oscar não necessariamente premia os melhores atores do ano, e os atores que o Oscar premia não necessariamente são bons ou seguirão sendo bons para sempre. Então não creio que usar a desculpa de que o ator/atriz ganhou o Oscar é de fato um bom argumento, até mesmo para quem não entende de cinema.
Não me leve a mal, eu mesma assisto a cerimônia do Oscar todos os anos e adoraria ganhar um, óbvio. Acho divertido na maioria das vezes, gosto de ver as atuações dos apresentadores e as apresentações de música que rolam, mas se fosse pra escolher talvez eu escolhesse o Taurus World Stunt Awards, o prêmio dos dublês.
Sei que um monte de gente já sabe disso tudo que eu falei e vai achar chato e repetitivo. Tô nem aí. Só queria mesmo é falar e ponto.
Mas pelo amor de deus, gente, parem de usar essas premiações e comentários de apresentadores do video show como desculpa para justificar a canastrisse desses atores.
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terça-feira, 7 de maio de 2013
Medos de Criança
Esses dias estive conversando com um amigo sobre medos de criança. Eu não sou mais criança (pelo menos não na idade), mas esses medos continuam me atacando da mesma forma. Tenho um medo de escuro sem tamanho, do que está ali e eu desconheço.
Outro dia estava em casa, a irmã que dorme comigo em meu quarto não estava, estava com minha avó, meu quarto é o único no andar de baixo da minha casa. O muro é relativamente baixo.
Faltou luz. Calor reconhecidamente insuportável do Rio de Janeiro. Solução: dormir com a janela aberta. O ar-condicionado não funcionava, o ventilador estava quebrado, e mesmo que funcionasse não adiantaria ligá-lo, como disse antes, não havia luz.
Me deitei na cama e assisti um último episódio de série antes que a bateria do meu netbook acabasse. Acabou. Fiquei no escuro. Aos poucos uma chuva rala, sem força foi caindo do lado de fora. Eu sozinha, olhando para o teto.
Ouvia as gotas de chuva caindo no telhado do orquidário da minha mãe. Para mim eram verdadeiramente barulhos de uma pessoa tentando pular meu muro. Não muito tempo depois comecei a ouvir barulhos dentro da casa, dentro da cozinha, como se houvesse alguém tentando encontrar alguma coisa. Provavelmente meu pai fazendo leite para o meu irmão ou buscando água para a minha mãe, ou quem sabe mesmo era o hamster do meu irmão rodando incessantemente na rodinha que arrasta na gaiola.
Fossem o que fossem os barulhos eu permaneci em minha cama mirando o teto. A espinha congelada até a cabeça, os músculos retesados, o medo nu e cru de levantar-me da cama e dar de cara com um assaltante, um assassino, um estuprador, ou pior, um espírito.
Puxei meu cobertor até o queixo mesmo com todo o calor que fazia. Pensei comigo mesma: "Que idiotice! Como se esse cobertor fosse te salvar de alguma coisa!". E ao mesmo tempo tentava me convencer de que se eu ficasse bem quietinha e não me mexesse o que quer que estivesse em minha cozinha não ia me ver ou ouvir. Continuei segurando fortemente meu cobertor.
Falando com esse amigo, meses depois voltei a me perguntar e ele também ficou se perguntando porque será que temos esse impulso tão grande de nos agarrar ao cobertor e essa crença maior ainda de que isso vai fazer alguma diferença em casos de perigo. Conversamos sobre isso um tempo e chegamos também a conclusão de que muitas pessoas tem essa necessidade de dormir com algo que pese sobre ela, se não "pese" que pelo menos seja mais pesado e mais grosso que um simples lençol.
O fato é que recentemente estava em um momento entre o sonho e o despertar e me veio exatamente a mente algo que eu acredito é uma ótima desculpa para esse comportamento, principalmente quando pequenos. Necessitamos de um útero que nos acolha.
Passamos os primeiros nove meses de nossa vida dentro de um útero quentinho, nadando, que nos fornece proteção e nos mantém apertadinhos enquanto dormimos. O primeiro contato que temos com o mundo é uma luz muito forte, uma sensação de frio e uma dor que se sente quando se respira pela primeira vez. O mundo para um bebê deve ser extremamente assustador. Imagina, é como se alguém te arrancasse da sua cama no meio da noite de uma noite muito fria de inverno te molhasse com um balde de água e te fizesse respirar essa água imediatamente após enfiar uma lanterna neon na sua cara. E vamos adicionar a isso tudo o fato de que você provavelmente estava sonhando algo muito bom. Pois é, não deve ser das sensações mais agradáveis do mundo.
Muita gente nesse mundo passa a vida tentando encontrar de volta a sensação de segurança que sentia antes de nascer, eu acho que nesse sentido o cobertor para a criança (e para mim agora depois de adulta ainda) é uma forma de chegar o mais próximo possível da sensação de ter um útero quentinho para te proteger.
É como ter de volta a sua mãe cuidando de você e te fazendo acreditar que nada nesse mundo pode encostar em você ou pode te ver. Quem não quer se sentir seguro? Quem não quer se sentir amado? Mesmo que seja uma ilusão causada pela presença de um cobertor a te envolver durante a noite. Para alguns depois esse cobertor passa a ser alguém, e talvez a sensação melhore, mas eu creio que isso tudo surge daí, desses nove meses de mãe. O que infelizmente para mim, ainda não me explica meu medo de escuro.
Outro dia estava em casa, a irmã que dorme comigo em meu quarto não estava, estava com minha avó, meu quarto é o único no andar de baixo da minha casa. O muro é relativamente baixo.
Faltou luz. Calor reconhecidamente insuportável do Rio de Janeiro. Solução: dormir com a janela aberta. O ar-condicionado não funcionava, o ventilador estava quebrado, e mesmo que funcionasse não adiantaria ligá-lo, como disse antes, não havia luz.
Me deitei na cama e assisti um último episódio de série antes que a bateria do meu netbook acabasse. Acabou. Fiquei no escuro. Aos poucos uma chuva rala, sem força foi caindo do lado de fora. Eu sozinha, olhando para o teto.
Ouvia as gotas de chuva caindo no telhado do orquidário da minha mãe. Para mim eram verdadeiramente barulhos de uma pessoa tentando pular meu muro. Não muito tempo depois comecei a ouvir barulhos dentro da casa, dentro da cozinha, como se houvesse alguém tentando encontrar alguma coisa. Provavelmente meu pai fazendo leite para o meu irmão ou buscando água para a minha mãe, ou quem sabe mesmo era o hamster do meu irmão rodando incessantemente na rodinha que arrasta na gaiola.
Fossem o que fossem os barulhos eu permaneci em minha cama mirando o teto. A espinha congelada até a cabeça, os músculos retesados, o medo nu e cru de levantar-me da cama e dar de cara com um assaltante, um assassino, um estuprador, ou pior, um espírito.
Puxei meu cobertor até o queixo mesmo com todo o calor que fazia. Pensei comigo mesma: "Que idiotice! Como se esse cobertor fosse te salvar de alguma coisa!". E ao mesmo tempo tentava me convencer de que se eu ficasse bem quietinha e não me mexesse o que quer que estivesse em minha cozinha não ia me ver ou ouvir. Continuei segurando fortemente meu cobertor.
Falando com esse amigo, meses depois voltei a me perguntar e ele também ficou se perguntando porque será que temos esse impulso tão grande de nos agarrar ao cobertor e essa crença maior ainda de que isso vai fazer alguma diferença em casos de perigo. Conversamos sobre isso um tempo e chegamos também a conclusão de que muitas pessoas tem essa necessidade de dormir com algo que pese sobre ela, se não "pese" que pelo menos seja mais pesado e mais grosso que um simples lençol.
O fato é que recentemente estava em um momento entre o sonho e o despertar e me veio exatamente a mente algo que eu acredito é uma ótima desculpa para esse comportamento, principalmente quando pequenos. Necessitamos de um útero que nos acolha.
Passamos os primeiros nove meses de nossa vida dentro de um útero quentinho, nadando, que nos fornece proteção e nos mantém apertadinhos enquanto dormimos. O primeiro contato que temos com o mundo é uma luz muito forte, uma sensação de frio e uma dor que se sente quando se respira pela primeira vez. O mundo para um bebê deve ser extremamente assustador. Imagina, é como se alguém te arrancasse da sua cama no meio da noite de uma noite muito fria de inverno te molhasse com um balde de água e te fizesse respirar essa água imediatamente após enfiar uma lanterna neon na sua cara. E vamos adicionar a isso tudo o fato de que você provavelmente estava sonhando algo muito bom. Pois é, não deve ser das sensações mais agradáveis do mundo.
Muita gente nesse mundo passa a vida tentando encontrar de volta a sensação de segurança que sentia antes de nascer, eu acho que nesse sentido o cobertor para a criança (e para mim agora depois de adulta ainda) é uma forma de chegar o mais próximo possível da sensação de ter um útero quentinho para te proteger.
É como ter de volta a sua mãe cuidando de você e te fazendo acreditar que nada nesse mundo pode encostar em você ou pode te ver. Quem não quer se sentir seguro? Quem não quer se sentir amado? Mesmo que seja uma ilusão causada pela presença de um cobertor a te envolver durante a noite. Para alguns depois esse cobertor passa a ser alguém, e talvez a sensação melhore, mas eu creio que isso tudo surge daí, desses nove meses de mãe. O que infelizmente para mim, ainda não me explica meu medo de escuro.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Terra Estrangeira
Nunca o sentido de viver fez tanto sentido pra mim. Estar em outro país, falar outra língua, trabalhar para poder morar em algum lugar, isso é de fato muito diferente do que eu fazia no Brasil.
Os brasileiros sempre comentam como os Argentinos são tão diferentes de nós, mas a verdade é que somos tão parecidos que nem nos damos conta.
Claro, há pequenas diferenças, caso contrário estaríamos em um só país, mas de verdade, é quase tudo o mesmo: as mesmas ruas, os mesmos metrôs, os mesmos trens, as mesmas pessoas legais, metidas, enfadonhas, enojantes, inteligentes e solidárias que conhecemos tão bem. Os estereótipos estão por todo lugar.
Nunca foram tão verdadeiros todos os dizerem sobre os seres humanos serem todos iguais. Nós somos todos iguais.
É uma terra estrangeira, mas, talvez pela presença constante dos meus amigos pela internet, eu tenho a sensação de nunca ter saído de casa. É realmente impressionante quando um país pode te fazer sentir em casa.
Não que eu não me sinta estranha, estrangeira, quando eu vou à uma aula e todos lá falam tão diferente daquilo com o qual estou acostumada. Claro que dá saudade de casa, dos pais, dos irmãos, claro que a água ter um pouco mais de sal e a comida ser um pouco cara me faz ter saudade de poder fazer compras no mercado com o cartão do meu pai e não ter que me preocupar com um monte de coisas.
A rixa entre brasileiros e argentinos pode ser muito verdadeira para alguns, pode ser uma farsa para outros, e pode até ser uma brincadeira para mais alguns, mas aqui nunca fui recebida com nada menos do que uma mão estendida e um sorriso no rosto.
Obviamente nada daqui poderia substituir aqueles amigos que eu deixei no Brasil, mas a experiência é válida, e me enche os olhos. Cuidar-se a si mesmo (o que é uma redundância aceita na língua castellana), é de fato uma experiência encantadora. Não sei o que será daqui pra frente, mas já sou diferente.
Pode ser que alguns que leiam isso não concordem comigo, pode ser que amanhã eu não concorde comigo mesma, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu estou pronta para a aventura.
Os brasileiros sempre comentam como os Argentinos são tão diferentes de nós, mas a verdade é que somos tão parecidos que nem nos damos conta.
Claro, há pequenas diferenças, caso contrário estaríamos em um só país, mas de verdade, é quase tudo o mesmo: as mesmas ruas, os mesmos metrôs, os mesmos trens, as mesmas pessoas legais, metidas, enfadonhas, enojantes, inteligentes e solidárias que conhecemos tão bem. Os estereótipos estão por todo lugar.
Nunca foram tão verdadeiros todos os dizerem sobre os seres humanos serem todos iguais. Nós somos todos iguais.
É uma terra estrangeira, mas, talvez pela presença constante dos meus amigos pela internet, eu tenho a sensação de nunca ter saído de casa. É realmente impressionante quando um país pode te fazer sentir em casa.
Não que eu não me sinta estranha, estrangeira, quando eu vou à uma aula e todos lá falam tão diferente daquilo com o qual estou acostumada. Claro que dá saudade de casa, dos pais, dos irmãos, claro que a água ter um pouco mais de sal e a comida ser um pouco cara me faz ter saudade de poder fazer compras no mercado com o cartão do meu pai e não ter que me preocupar com um monte de coisas.
A rixa entre brasileiros e argentinos pode ser muito verdadeira para alguns, pode ser uma farsa para outros, e pode até ser uma brincadeira para mais alguns, mas aqui nunca fui recebida com nada menos do que uma mão estendida e um sorriso no rosto.
Obviamente nada daqui poderia substituir aqueles amigos que eu deixei no Brasil, mas a experiência é válida, e me enche os olhos. Cuidar-se a si mesmo (o que é uma redundância aceita na língua castellana), é de fato uma experiência encantadora. Não sei o que será daqui pra frente, mas já sou diferente.
Pode ser que alguns que leiam isso não concordem comigo, pode ser que amanhã eu não concorde comigo mesma, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu estou pronta para a aventura.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Café
Existe algo de encantador e misterioso em pessoas que bebem café. Conheço pessoas que bebem café pelo simples hábito de beber.
Existe algum tipo de teoria que ligue o ato de beber café com o fato dele estar incutido tão profundamente em meios artísticos e criativos? Não sei, mas tenho essa impressão de que o café é de alguma forma fonte de inspiração e mantenedor da existência artística.
Já imaginou o que seria de artistas, cineastas, designers, programadores, e toda raça de pessoas que lidam com a criatividade sem café?
Não me toca tão profundamente essa substância negra, às vezes espessa e amarga se sem açúcar.
Há quem não viva sem. Há quem o tome como vício.
Não sei do que se trata a magia que cerca o café, mas deve fazer alguma diferença para a criatividade enfim, estou cá escrevendo sobre ele, e nem sequer senti seu cheiro hoje.
Existe algum tipo de teoria que ligue o ato de beber café com o fato dele estar incutido tão profundamente em meios artísticos e criativos? Não sei, mas tenho essa impressão de que o café é de alguma forma fonte de inspiração e mantenedor da existência artística.
Já imaginou o que seria de artistas, cineastas, designers, programadores, e toda raça de pessoas que lidam com a criatividade sem café?
Não me toca tão profundamente essa substância negra, às vezes espessa e amarga se sem açúcar.
Há quem não viva sem. Há quem o tome como vício.
Não sei do que se trata a magia que cerca o café, mas deve fazer alguma diferença para a criatividade enfim, estou cá escrevendo sobre ele, e nem sequer senti seu cheiro hoje.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Brincadeira de Criança
Já tinha escrito esse texto há muito tempo, desde o meio de março acho, mas me esqueci de postar aqui.
"Essa semana me deparei com algumas coisas que não vejo há muito tempo.
É engraçado que só sentimos como o tempo pasou quando nos deparamos com coisas do nosso passado. Embra eu lute todo dia para que o mundo não mate a criança em mim, eu vejo a cada dia mais que isso é difícil. Não vou desistir. Até porque são coisas como as que eu vi essa semana que me dão esperança no futuro.
Comecei a ser monitora no colégio que eu costumava estudar. Como só começava à uma e eu havia chegado cedo, sentei-me no pátio do colégio, escutando meu Nerdcast e observando as crianças que brincavam.
Os próximos 30 minutos após esse meu ato me deparei com uma coisa incrível: vi dois meninos de seus 7 ou 8 anos brincando de amarelinha (jogo em que se pula números de um em um com o intuito de chegar ao "céu"). Claro que as regras do jogo já não eram mais as mesmas, nada resiste impassível ao tempo, mas resistiu a inocência, a simplicidade de pegar sua pedrinha e pular sobre marcas no chão.
Depois de algum tempo surgiram mais crianças, como não para a minha surpresa, inclusive mais velhos e mais novos do que os dois meninos. Incrível, parecia que por um momento eu havia voltado como um baque agradável à minha infância. Não durou muito. Triste.
E como outra agradável surpresa, no dia seguinte, no ônibus lotado, em pé, ouvindo Papo de Gordo, olhei para o lado em meio ao engarrafamento e vi uma garota de uns 12 anos sentada bem próxima à mim, indo contrariamente à tendência completa dos adolescentes da idade dela hoej em dia, com um CD recém comprado nas mãos. Achei que, tirando eu, alguns conhecidos, e algumas pessoas com mais idade que compramos CDs, ninguém mais, ainda mais na idade dela, comprava CDs, surpresa de novo. Voltei para casa pensando nas coisas boas da minha infância.
No dia seguinte baixei o novo episódio do Nerdcast, para minha surpresa sobre Tokusatsu, não esperava que duas semanas depois viria o de anime, para arrebatar a minha semana nostalgica, que quase se transformou em mês.
Lembrar de forma tão doce e tão inesperada, de coisas que eu achei que já tinham ido embora há muito foi maravilhoso.
Agradeço aos Nerdcasters, ao pessoal do PdG, à menina do ônibus, e à todas aquelas crianças do colégio por compartilharem essa lembrança comigo, mesmo sem saber. Obrigada."
Podcasts citados no texto:
Papo de Gordo: http://www.papodegordo.com.br
Nerdcast: http://www.jovemnerd.com/
"Essa semana me deparei com algumas coisas que não vejo há muito tempo.
É engraçado que só sentimos como o tempo pasou quando nos deparamos com coisas do nosso passado. Embra eu lute todo dia para que o mundo não mate a criança em mim, eu vejo a cada dia mais que isso é difícil. Não vou desistir. Até porque são coisas como as que eu vi essa semana que me dão esperança no futuro.
Comecei a ser monitora no colégio que eu costumava estudar. Como só começava à uma e eu havia chegado cedo, sentei-me no pátio do colégio, escutando meu Nerdcast e observando as crianças que brincavam.
Os próximos 30 minutos após esse meu ato me deparei com uma coisa incrível: vi dois meninos de seus 7 ou 8 anos brincando de amarelinha (jogo em que se pula números de um em um com o intuito de chegar ao "céu"). Claro que as regras do jogo já não eram mais as mesmas, nada resiste impassível ao tempo, mas resistiu a inocência, a simplicidade de pegar sua pedrinha e pular sobre marcas no chão.
Depois de algum tempo surgiram mais crianças, como não para a minha surpresa, inclusive mais velhos e mais novos do que os dois meninos. Incrível, parecia que por um momento eu havia voltado como um baque agradável à minha infância. Não durou muito. Triste.
E como outra agradável surpresa, no dia seguinte, no ônibus lotado, em pé, ouvindo Papo de Gordo, olhei para o lado em meio ao engarrafamento e vi uma garota de uns 12 anos sentada bem próxima à mim, indo contrariamente à tendência completa dos adolescentes da idade dela hoej em dia, com um CD recém comprado nas mãos. Achei que, tirando eu, alguns conhecidos, e algumas pessoas com mais idade que compramos CDs, ninguém mais, ainda mais na idade dela, comprava CDs, surpresa de novo. Voltei para casa pensando nas coisas boas da minha infância.
No dia seguinte baixei o novo episódio do Nerdcast, para minha surpresa sobre Tokusatsu, não esperava que duas semanas depois viria o de anime, para arrebatar a minha semana nostalgica, que quase se transformou em mês.
Lembrar de forma tão doce e tão inesperada, de coisas que eu achei que já tinham ido embora há muito foi maravilhoso.
Agradeço aos Nerdcasters, ao pessoal do PdG, à menina do ônibus, e à todas aquelas crianças do colégio por compartilharem essa lembrança comigo, mesmo sem saber. Obrigada."
Podcasts citados no texto:
Papo de Gordo: http://www.papodegordo.com.br
Nerdcast: http://www.jovemnerd.com/
sexta-feira, 4 de março de 2011
Amor Puro
Essa semana eu andava pela rua desavisada de que iria ouvir uma história maravilhosa.
Voltava da faculdade, dia cheio, andava rápido, precisava pegar o ônibus. Chovia um chuva fraquinha daquelas que molham.
De repente me chegou aos ouvidos a voz de um homem que caminhava ao meu lado.
Ele, ao que parecia, conversava com um amigo no telefone contando uma ida a um restaurante. Nesse restaurante o homem conheceu uma mulher, e ele, se apaixonou. Não me pareceu saber seu nome, mas se apaixonou.
É possível que ainda existam homens à moda antiga? Nunca havia pensado que eu ia presenciar esse tipo de conversa, o homem falava ao telefone: "[..] eu não conseguia parar de olhar para ela. Ela era simples sabe? Do tipo que não precisa de maquiagem para ficar bonita? A simpatia dela deixava ela bonita. Eu não consegui parar de olhar para ela enquanto comia. O garçon foi falar pra ela: 'Aquele senhor pediu para dizer que não conseguiu tirar os olhos da senhora desde que a senhora entrou no restaurante'".
O homem estava realmente falando da mulher como se tivesse acabado de encontrar o amor da sua vida.
Foi uma lufada de ar quente no coração em meio àquela chuvinha, àquele dia cheio. Me senti novamente esperançosa diante das possibilidades da vida.
Estamos precisando de mais homens assim na nossa convivência, homens que sejam capazes de se apaixonar pela simpatia de uma mulher num almoço de segunda-feira. Homem que contem aos seus melhores amigos (pelo telefone mesmo, antes de pegar um engarrafamento), como uma mulher não precisa de maquiagem para ser bonita, como a simplicidade pode ser apaixonante.
À você, pedestre trabalhador apaixonado de segunda-feira, meus cumprimentos, você possui a atitude certa para nos fazer acreditar novamente que o amor puro é possível, o amor simples.
E citando, um daqueles que é o meu ídolo: "Um amor puro, não sabe a força que tem [...]", Djavan.
Voltava da faculdade, dia cheio, andava rápido, precisava pegar o ônibus. Chovia um chuva fraquinha daquelas que molham.
De repente me chegou aos ouvidos a voz de um homem que caminhava ao meu lado.
Ele, ao que parecia, conversava com um amigo no telefone contando uma ida a um restaurante. Nesse restaurante o homem conheceu uma mulher, e ele, se apaixonou. Não me pareceu saber seu nome, mas se apaixonou.
É possível que ainda existam homens à moda antiga? Nunca havia pensado que eu ia presenciar esse tipo de conversa, o homem falava ao telefone: "[..] eu não conseguia parar de olhar para ela. Ela era simples sabe? Do tipo que não precisa de maquiagem para ficar bonita? A simpatia dela deixava ela bonita. Eu não consegui parar de olhar para ela enquanto comia. O garçon foi falar pra ela: 'Aquele senhor pediu para dizer que não conseguiu tirar os olhos da senhora desde que a senhora entrou no restaurante'".
O homem estava realmente falando da mulher como se tivesse acabado de encontrar o amor da sua vida.
Foi uma lufada de ar quente no coração em meio àquela chuvinha, àquele dia cheio. Me senti novamente esperançosa diante das possibilidades da vida.
Estamos precisando de mais homens assim na nossa convivência, homens que sejam capazes de se apaixonar pela simpatia de uma mulher num almoço de segunda-feira. Homem que contem aos seus melhores amigos (pelo telefone mesmo, antes de pegar um engarrafamento), como uma mulher não precisa de maquiagem para ser bonita, como a simplicidade pode ser apaixonante.
À você, pedestre trabalhador apaixonado de segunda-feira, meus cumprimentos, você possui a atitude certa para nos fazer acreditar novamente que o amor puro é possível, o amor simples.
E citando, um daqueles que é o meu ídolo: "Um amor puro, não sabe a força que tem [...]", Djavan.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Sensações de Viagem
Você já viajou? Não quero dizer viagem de avião, nem de ônibus, nem viagem internacional.
Tô falando daquela viagem de verdade, de pegar o carro, se jogar na estrada, dirigir durante o dia, dormir à noite, e andar, meio sem rumo.
Quando eu era menor, eu, meus pais e meus irmão fizemos duas grandes viagens de carro, que duraram cerca de 20 dias cada, uma para o sul do país e outra para o nordeste.
Saíamos de casa ainda dormindo às 5 da manhã e rumávamos para a estrada, meio sem saber aonde íamos parar. Tínhamos o destino final sempre, na viagem do sul, Arroio do Meio (RS) onde mora uma tia minha, na viagem do nordeste, Porto Seguro (BA), mas obviamente, meu pai e minha mãe não ficaríam dois dias dirigindo direto, então, viajávamos pela manhã, na hora do almoço, ou mais tarde (umas 3 horas) parávamos em alguma cidade, rodávamos para conhecer um pouco, dormíamos e voltavamos às estradas no dia seguinte bem cedo.
Digo: "Não há nada como a sensação de viajar de carro". Aquela despreocupação, o prazer em rodar por estradas maravilhosas, paisagens bucólicas, conhecer o Brasil maravilhoso.
Nada se compara a sensação de se perder na estrada. É um medinho lá no fundo, mas uma vontade enorme de continuar na peregrinação, fazer enormes voltas, achar que o lugar onde você está não está no mapa, e segundos depois descobrir que vc tava olhando o mapa do lado errado. É sensacional. Impagável.
Era preciso que todos fizessem pelo menos uma viagem dessas na vida, pegassem o carro e saissem sem rumo. Quando desse vontade de voltar pra casa, voltassem.
Dessa forma que conheci locais maravilhos do Brasil: Floripa, Curitiba, Porto Alegre, Conceição da Barra (onde voltei no ano seguinte, e no seguinte), Blumenau, Balneário de Camboriu, Vitória, e muitas outras cidades.
A sensação de liberdade é embreagante, é viciante. Viajar é o meu vício, amar meu país.
Viajem! De carro, de bicicleta, de avião, de ônibus, à pé, de qualquer forma, viajem!
Tô falando daquela viagem de verdade, de pegar o carro, se jogar na estrada, dirigir durante o dia, dormir à noite, e andar, meio sem rumo.
Quando eu era menor, eu, meus pais e meus irmão fizemos duas grandes viagens de carro, que duraram cerca de 20 dias cada, uma para o sul do país e outra para o nordeste.
Saíamos de casa ainda dormindo às 5 da manhã e rumávamos para a estrada, meio sem saber aonde íamos parar. Tínhamos o destino final sempre, na viagem do sul, Arroio do Meio (RS) onde mora uma tia minha, na viagem do nordeste, Porto Seguro (BA), mas obviamente, meu pai e minha mãe não ficaríam dois dias dirigindo direto, então, viajávamos pela manhã, na hora do almoço, ou mais tarde (umas 3 horas) parávamos em alguma cidade, rodávamos para conhecer um pouco, dormíamos e voltavamos às estradas no dia seguinte bem cedo.
Digo: "Não há nada como a sensação de viajar de carro". Aquela despreocupação, o prazer em rodar por estradas maravilhosas, paisagens bucólicas, conhecer o Brasil maravilhoso.
Nada se compara a sensação de se perder na estrada. É um medinho lá no fundo, mas uma vontade enorme de continuar na peregrinação, fazer enormes voltas, achar que o lugar onde você está não está no mapa, e segundos depois descobrir que vc tava olhando o mapa do lado errado. É sensacional. Impagável.
Era preciso que todos fizessem pelo menos uma viagem dessas na vida, pegassem o carro e saissem sem rumo. Quando desse vontade de voltar pra casa, voltassem.
Dessa forma que conheci locais maravilhos do Brasil: Floripa, Curitiba, Porto Alegre, Conceição da Barra (onde voltei no ano seguinte, e no seguinte), Blumenau, Balneário de Camboriu, Vitória, e muitas outras cidades.
A sensação de liberdade é embreagante, é viciante. Viajar é o meu vício, amar meu país.
Viajem! De carro, de bicicleta, de avião, de ônibus, à pé, de qualquer forma, viajem!
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Odeio Funerais
Não gosto de funerais, isso é um fato. Mas acho que de fato ninguém gosta.
Mas o meu não-gostar não se deve ao fato de o funeral envolver morte e dor e etc. A morte é algo que acontece, e vai acontecer com todo mundo, antes ou depois do que você imagina, e a dor de alguns é inevitável, então não é isso que me desgosta nos funerais.
Para mim há 2 tipos de funerais: aqueles em que pessoas próximas morrem (amigos, família, etc) em que você fica completamente desolado e chora, e sente a dor, e passa por todo aquele momento de "luto". O outro tipo de funeral é o que particularmente me preocupa e amedronta, são os funerais de gente que você conhece mas que não era muito próximo de você.
Esse tipo de funeral é horrível.
Para começar você chega ao funeral meio sem entender o porque você está ali. Todas as pessoas a sua volta estão se derretendo em lágrimas, normalmente abarrotado de gente num lugar quente, e todos querem falar alguma coisa sobre o falecido.
Assim que você entra no local você fica com aquela sensação de que você não deveria estar ali. Você não sente a dor que aquelas pessoas estão sentindo. Você não pertence àquele lugar.
Passado um pouco desse choque inicial, e já um pouco mais convencido de que você deveria prestar essa última homenagem àquela pessoa conhecida, você passa para o segundo passo do estranhamento: todos estão chorando.
Chorar não é o problema, o problema de verdade é que você não sente a mínima vontade de chorar, não porque você não gostava do falecido, mas porque você não tinha esse contato todo. Nesse momento já está completamente desavontade naquele lugar. A situação piora quando alguém do seu lado começa a chorar descontroladamente. Se você for como eu, nesse momento você não vai ter a mínima idéia do que fazer, justamente porque não há o compartilhamento daquela dor horrenda que a outra pessoa está sentindo.
Então nesse momento você meio sem jeito tenta consolar a pessoa com um abraço ou uma passadinha de mão nas costas, ou um beijo no rosto. Daí podem acontecer duas coisas: ou a pessoa desaba mais e "caí" no choro se segurando em você, eu ela nem percebe que você está lá, tamanha a dor que ela sente.
Passado esse problema desconcertante temos uma situação na qual estive essa semana: você de repente, no meio da situação, sente vontade de chorar, não por causa do falecido, mas porque todos estão chorando e você acha comovente (ainda mais eu que sou uma manteiga derretida). Aí fiquei eu com a dúvida na cabeça: choro e me junto ao coro, ou tento ignorar essa vontade que vem do nada?
O problema era o seguinte: eu sabia que eu não queria chorar por causa do falecido, e isso me deixou num embate, onde eu achava que seria desrespeitoso chorar por qualquer outro motivo que não fosse o falecido, uma vez que todos que estavam chorando sentiam uma dor que vinha do fundo da alma, e eu não.
E o dilema persistiu por alguns momentos, mas acabei por fim decidindo não chorar.
Todos os dilemas foram permeados por um extremo desconforto.
Quando o corpo foi finalmente enterrado tive uma sensação de alívio profunda. Ufa! Acabou. E por incrível que pareça, eu senti que muitas das pessoas que estavam lá comigo, até muitas que estavam chorando, pareciam ter sentido o mesmo. Acabou. Para sempre.
E repito, odeio funerais.
Mas o meu não-gostar não se deve ao fato de o funeral envolver morte e dor e etc. A morte é algo que acontece, e vai acontecer com todo mundo, antes ou depois do que você imagina, e a dor de alguns é inevitável, então não é isso que me desgosta nos funerais.
Para mim há 2 tipos de funerais: aqueles em que pessoas próximas morrem (amigos, família, etc) em que você fica completamente desolado e chora, e sente a dor, e passa por todo aquele momento de "luto". O outro tipo de funeral é o que particularmente me preocupa e amedronta, são os funerais de gente que você conhece mas que não era muito próximo de você.
Esse tipo de funeral é horrível.
Para começar você chega ao funeral meio sem entender o porque você está ali. Todas as pessoas a sua volta estão se derretendo em lágrimas, normalmente abarrotado de gente num lugar quente, e todos querem falar alguma coisa sobre o falecido.
Assim que você entra no local você fica com aquela sensação de que você não deveria estar ali. Você não sente a dor que aquelas pessoas estão sentindo. Você não pertence àquele lugar.
Passado um pouco desse choque inicial, e já um pouco mais convencido de que você deveria prestar essa última homenagem àquela pessoa conhecida, você passa para o segundo passo do estranhamento: todos estão chorando.
Chorar não é o problema, o problema de verdade é que você não sente a mínima vontade de chorar, não porque você não gostava do falecido, mas porque você não tinha esse contato todo. Nesse momento já está completamente desavontade naquele lugar. A situação piora quando alguém do seu lado começa a chorar descontroladamente. Se você for como eu, nesse momento você não vai ter a mínima idéia do que fazer, justamente porque não há o compartilhamento daquela dor horrenda que a outra pessoa está sentindo.
Então nesse momento você meio sem jeito tenta consolar a pessoa com um abraço ou uma passadinha de mão nas costas, ou um beijo no rosto. Daí podem acontecer duas coisas: ou a pessoa desaba mais e "caí" no choro se segurando em você, eu ela nem percebe que você está lá, tamanha a dor que ela sente.
Passado esse problema desconcertante temos uma situação na qual estive essa semana: você de repente, no meio da situação, sente vontade de chorar, não por causa do falecido, mas porque todos estão chorando e você acha comovente (ainda mais eu que sou uma manteiga derretida). Aí fiquei eu com a dúvida na cabeça: choro e me junto ao coro, ou tento ignorar essa vontade que vem do nada?
O problema era o seguinte: eu sabia que eu não queria chorar por causa do falecido, e isso me deixou num embate, onde eu achava que seria desrespeitoso chorar por qualquer outro motivo que não fosse o falecido, uma vez que todos que estavam chorando sentiam uma dor que vinha do fundo da alma, e eu não.
E o dilema persistiu por alguns momentos, mas acabei por fim decidindo não chorar.
Todos os dilemas foram permeados por um extremo desconforto.
Quando o corpo foi finalmente enterrado tive uma sensação de alívio profunda. Ufa! Acabou. E por incrível que pareça, eu senti que muitas das pessoas que estavam lá comigo, até muitas que estavam chorando, pareciam ter sentido o mesmo. Acabou. Para sempre.
E repito, odeio funerais.
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